A magia na ponta dos pés

O título não é meu, não fui eu que o idealizei, pertence à minha colega de profissão Filipa Faria, jornalista do extinto programa Cartaz das Artes. Na altura serviu para ilustrar uma bonita reportagem sobre o Ballet, os bailarinos, os meandros desta dança clássica. Mas é tão bonito e marcou-me tanto que nunca mais o esqueci.
Quando decidi entrevistar o Paulo Jesus e comecei a editar esta entrevista, saltou-me logo à memória. É perfeito. A magia na ponta dos dedos. O Paulo é realmente mágico, um bailarino brilhante, um coreógrafo de mão cheia, completo, criativo, repleto de sensibilidade para criar. Criar passos, criar emoções, ligando o corpo, a mente, a música e a dança. 
Conheci o Paulo na TVI. Durante anos, em todas as Galas, grandes eventos da estação e em vários programas deu asas à imaginação e ofereceu-nos (a nós, jornalistas e a quem nos viu em casa) momentos de magia... literalmente na ponta dos pés.



TCUP- Quando descobriste que o teu caminho, a tua vida, passaria pela dança? 
Paulo Jesus- Aos 14 anos, era já ginasta no Boavista F.C., depois surgiu a série ‘Fame’ e com ela os cursos intensivos de dança. Depois de experimentar no liceu nunca mais parei!

TCUP- Foi algo que cresceu dentro de ti ou nasceste com este bichinho?
PJ- Cresceu em mim, se bem que a minha mãe diz que irresistivelmente dançava se houvesse musica...

TCUP- Como foi crescer bailarino?
PJ- Foi fácil, tive sempre o apoio dos meus pais embora eles pensassem que era apenas uma atividade de entre as muitas que fazia.

TCUP- Dedicaste a tua vida por completo a esta arte. O que implicou para ti essa escolha?
PJ- Dediquei-me por completo, só assim se consegue. Não é uma profissão fácil, mas também não me privei de nada que quisesse fazer. Levei a formação muito a sério, principalmente quando recebi uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian e tive que vir para Lisboa aos 17 anos. 


TCUP- Um sonho e um sacrifício. Existe mesmo esta dualidade no Ballet em particular e na dança em geral?
PJ- Completamente! Que o digam os bailarinos e bailarinas clássicos, que no meu entender são os que sofrem mais. E eu, como tenho base técnica no Ballet Clássico, sei muito bem o que isso é. 

TCUP- Dançaste em companhias de bailado portuguesas e estrangeiras. Como foi essa experiência? Quais as maiores diferenças entre Portugal e outros países?
PJ- É muito diferente trabalhar em Portugal e no estrangeiro. Por aqui, apesar do esforço contínuo de fazer da dança uma profissão digna, não há respeito nenhum, quer das entidades governamentais quer mesmo por parte do público (e que me perdoe quem gosta mesmo de bailado) mas de uma maneira geral a dança não é bem vista enquanto arte ou profissão. Ainda me lembro aqui há uns anos de ir ás Finanças e a respectiva secretária quando me pergunta qual a minha profissão, eu respondo "bailarino" e ela com cara de desprezo diz “eu perguntei a profissão”… Pronto, foi isto. Na Alemanha era o oposto, o respeito que têm por um artista de bailado é tão grande como a primeira figura da ópera ou da pop. A arte de dançar é uma mais-valia para qualquer país. 

TCUP- Como é o dia-a-dia de um bailarino profissional?
PJ- Começa entre pelas 09h00 da manhã com uma aula de hora e meia. Segue uma pausa e depois ensaios e repetições até tudo estar como o coreógrafo ou o criativo deseja e pensa. E termina o dia por volta das 18h00, muitas vezes ainda com tempo para fazer uma aula mais especifica, por exemplo uma aula só para homens/mulheres, uma aula de pontas, pás de deux, depende depois do próprio bailarino. 

(com a atriz Andreia Dinis)

TCUP- É uma profissão com data de validade?
PJ- Para mal dos nossos pecados é uma profissão com prazo de validade. Até aos 40 anos ainda poderá acontecer, mas depois disso o desgaste é muito grande. Mazelas nas costas ou nos joelhos são as mais limitativas para ir até aos 66 anos. 

TCUP- Dançar ou coreografar, o que mais gostas?
PJ- Depois dos 35 anos dediquei-me só a coreografar, mas até então adorava dançar, sentia-me realizado, o palco de facto é algo inexplicável. Presentemente dá-me imenso prazer coreografar, levar um projeto desde a sua criação/imaginação até ao público. 

TCUP- Parar de dançar é algum dia uma possibilidade para ti?
PJ- Já pensei nisso mas não com data marcada, só marquei mesmo a idade com que pararia de dançar continuamente, diariamente, mas estar ligado á dança faz-me muito feliz. 



TCUP- Até hoje, qual o espetáculo que mais te emocionou dançar?
PJ- Foram vários e por boas razões. Mas quando fui convidado entre 4 bailarinos em Portugal para ir dançar na Gala de Entrega de Macau á China, foi mesmo "O" momento. Coreograficamente o que mais me marcou foi o trabalho de um coreografo americano, Mark Haim, com o nome de “Sete Situações á Volta da Mesa” para a Companhia de Dança de Lisboa na temporada de 88/89.     

TCUP- Televisão, palco, galas, escolas de dança, eventos, salas cheias. Feliz com as tuas escolhas e o teu percurso?
PJ- Felicíssimo! Passei por tudo, fiz de tudo um pouco. Experimentei a minha dança fora das nossas fronteiras e fui acarinhado pelo público. Gostam do meu trabalho ainda hoje e, por isso mesmo, vou continuar!


Obrigada, Paulo, por partilhares a tua história de magia!

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