Namalimba... Quando a arte se personifica.

A Namalimba, para quem não conhece, é a Assessora de Imprensa do Museu Berardo. Tem o privilégio de viver as oito horas de trabalho diário em paredes repletas de arte moderna e contemporânea. Aliás, respira e transpira arte, não apenas as ditas paredes mas toda a Namalimba. A começar pelo nome que é inspirado na história de uma princesa guerreira, ao sentido estético que lhe está no ADN, ao estilo único e cativante. Tudo na Namalimba vibra como uma pintura, um filme francês ou uma composição musical. Pelo menos é assim que a vejo no meu imaginário. Uma mulher completa, cheia de tudo na vida, memórias, vivências, inspirações, histórias, sorrisos e lágrimas.
Se tivesse de escolher alguém para personificar a ARTE como um todo, escolheria de certeza a Namalimba. Uma vida dedicada de alma e coração à cultura em todas as formas.
E se esta entrevista tivesse um cenário optaria por uma mesa num bonito café em Saint Germain des Prés, em Paris, teríamos um cogumelo para nos aquecer, beberíamos vinho tinto e a banda sonora seria vasta. 
Aqui estou eu a imaginar um filme mas com a Namalimba não faz mal porque tenho a certeza que seria a protagonista perfeita.


(Fotografia | Luís Sustelo)

(La Valse D`Amelie Orchestra Version)


Create your own visual style...
 let it be unique for yourself and yet identifiable for others.
Orson Welles

TCUP- Como foi crescer em terras angolanas? Há uma simplicidade na forma de estar e de viver? Os conflitos marcaram o teu percurso de vida?
Namalimba Coelho- Angola está, sem dúvida, na origem da minha identidade e na formação da minha personalidade e da minha história pessoal e familiar. Angola deu-me o nome, Namalimba, uma lenda do Huambo, escolhido pelos meus pais pela relação com o contexto político e com a história de Angola. O meu nome foi o meu primeiro desafio, e continua a sê-lo. Ensinou-me a crescer com a diferença e a recordar as minhas origens continuamente. Falamos do primeiro e talvez principal elemento que nos identifica e introduz no contexto das relações sociais. E viver com o meu nome representa um desafio contínuo!
O facto de ter nascido e vivido a primeira infância em Luanda, em plena guerra civil, teve muito impacto. Vivi numa realidade de exceção, mas que para mim representava a normalidade, porque eram aquelas as minhas referências do quotidiano. Tenho muitas memórias da cidade, de quando chegavam os contentores de comida, as paisagens e as praias nos dias em que conseguíamos sair para passear de barco ou ir para o Mussulo, a ilha, os russos e os cubanos que tinham uma relação política com o regime da altura, a nossa chimpanzé Maguila que vivia connosco antes de a obrigarem a ir para o jardim zoológico, o primeiro dia na escola francesa, as falhas de eletricidade, água, o Natal no verão, a Tita...
Muitas recordações tenho. Tínhamos recolher obrigatório, por isso não andávamos na rua e não tinha amigos com quem pudesse estar diariamente, porque tínhamos de viver com regras de segurança. Foi exatamente por razões de segurança e porque as escolas estavam praticamente todas destruídas na altura, que fui estudar para a escola francesa. Este momento foi decisivo, marcou o início de uma relação social para além da casa, com 6 anos. De um momento para o outro passei a conviver intensamente com crianças de todas as nacionalidades e origens, a maioria filhos de diplomatas do mundo inteiro.
Entretanto vim para Portugal, para o Liceu Francês, e senti um choque cultural imenso! Aterrei numa realidade completamente nova, um panorama completamente diferente. Vinha com sotaque angolano, era uma menina loirinha mas que se chamava “Namalimba” e se isso é um desafio na idade adulta, imagina em criança! Costumo dizer que quem enfrenta uma vida com um nome destes pode ser o que quiser, sem vergonha nenhuma!



TCUP- Uma vida falada e escrita em francês. França é um país de artistas, Paris é uma cidade que cheira a arte. Factores decisivos na tua adolescência e entrada na idade adulta?
NC- A cultura francesa faz parte de mim de uma forma tão intensa e intrínseca que quase me posso considerar francesa também. Foi a primeira língua que aprendi a ler e escrever. Foram mais de 20 anos de estudos no sistema francês, quatro anos de vida em Paris, e uma ligação para a vida...



TCUP- Cursaste Direito, colaboraste em projectos nas Nações Unidas mas a partir do momento em que começaste a trabalhar no meio artístico foi um bilhete de ida sem volta. Foi uma decisão consciente ou o destino?
NC- Tudo foi acontecendo, consequente e naturalmente. Na minha infância, em África, sonhava com o mundo para além do meu, na adolescência, queria ser Presidente da República… Entretanto segui Direito, mas a minha ida para Paris mudou tudo. Grandes lições aprendi com pessoas e contextos absolutamente improváveis. Foram quatro anos em suspensão de tudo o que era a minha zona de conforto. Especializei-me em Direitos Humanos na Universidade de Nanterre, onde cruzei pessoas incríveis, inspiradoramente idiossincráticas e pró-ativas na contestação de direitos (foi o ponto de origem do movimento estudantil de Maio de 68) ao mesmo tempo que estudava na École Doctorale de la Sorbonne, onde o ambiente era outro, onde integrava um projeto ligado às Nações Unidas e aos Tribunais Penais Internacionais (Ruanda e Ex-Jugoslávia) nos processos de julgamento de crimes de Genocídio, crimes de Guerra e contra a Humanidade. Ou seja, frequentava duas universidades que me proporcionavam uma vivência de duas realidades completamente dispares. E em 2003, voltei para Portugal mas nada me motivava nesta área e estabeleci um prazo para regressar para Paris caso nada acontecesse. Foi então que soube das entrevistas para a área de comunicação na Experimentadesign. Não conhecia nada nem ninguém naquele meio e estava há quatro anos afastada da realidade portuguesa, mas aquele desafio entusiasmava-me e fiquei. Foi então que descobri a profissão de assessora de imprensa, os protagonistas da cena artística em Portugal, tudo no antípoda dos meus manuais de direito. Esta oportunidade acabou por se revelar uma descoberta de uma afinidade. E assim foi... paralelamente fui sendo convidada a integrar vários projetos, sempre na área das artes, do design, da moda.. mas tentando não abandonar os direitos humanos.  
A um mês da bienal inaugurar, fui um mês para Genebra integrar um grupo de trabalho na comissão de Direito Internacional nas Nações Unidas, em que conciliei dois universos de trabalho muito distintos durante 30 dias. E desde o meu regresso a Lisboa procuro estar envolvida noutras áreas, por isso frequentei 3 anos do curso de língua e cultura árabe na Universidade Nova; uma formação de acesso à carreira diplomática; de introdução ao jornalismo; de Luxury Brand Management, entre outras. É essencial diversificar interesses e conhecimentos. Dos direitos humanos às artes, não me sinto excluída de nenhum destes mundos, pelo que, sem nada esperar e sem nada recear, agarrei o desafio que representava esse tal bilhete de ida que me trouxe até aqui, em consequência de ter embarcado num desafio totalmente inesperado ou improvável face ao rumo profissional que seria expectável ter seguido.



TCUP- Como é que este caminho de vida te transformou como pessoa e te inspirou?
NC- Este caminho foi essencial e teve momentos cruciais. Momentos esses em que, tudo o que tinha como adquirido era então questionado. O desafio de tentar descodificar a minha dimensão enquadrada em cada nova realidade. E não me refiro apenas às mudança de país, de universo cultural ou sociológico, refiro-me às nossas próprias revoluções interiores, principalmente quando tudo o que nos rodeia aparenta ser perfeito. Fui continuamente posta à prova em muitas frentes, desde pequena, e isso permitiu-me observar, absorver, questionar, descodificar e, sem dúvida crescer e aprender a respeitar, os outros e a mim. Um importante exercício de auto-conhecimento.

TCUP- Arte como profissão. Arte como filosofia de vida. É fácil saber viver assim?
NC- Quando essa filosofia faz parte da nossa essência e a aplicamos a quem somos e ao que fazemos, sim, é fácil saber viver assim. É uma questão de sintonia, de nos mantermos fieis ao que nos é genuíno e espontâneo, sem necessidade de o justificar, qualificar ou quantificar...


(Vogue 2010)

TCUP- Pintura, Escultura, Moda, Escrita, Música, Cinema, Fotografia. Consegues escolher?
NC- Cada uma destas áreas tem uma função, definição e expressão própria. Cada uma destas áreas representa formas de manifestação artística que considero essenciais na sua individualidade como na sua complementaridade, como tal, tocam-me e inspiram-me de forma distinta, pelo que as escolho a todas, pelos critérios próprios que caracterizam e que distinguem cada uma delas.

TCUP- Quem são os teus ícones?
NC- Não idolatro ninguém, mas tendo uma profunda admiração por pessoas genuínas, aleatória e democraticamente, que se distinguem pela diferença que marcam sem a recear, que nos acrescentem e inspirem com essa idiossincrasia ou contributo, independentemente da sua área ou domínio de atuação. 
Enquanto ícones de estilo, destaco algumas personalidades que, para além do seu contagiante magnetismo, considero uma referência pela identidade única e inconfundível que as define, numa inspiradora conciliação entre estilo, atitude e conteúdo. São disso exemplo um conjunto de pessoas “desconhecidas” que tenho privilégio de ter na minha vida... e depois existe um conjunto de personalidades, mulheres neste caso, que muito considero.. a emancipadora bailarina burlesca dos anos 20 em Paris, Kiki de Montparnasse; a exuberante colecionadora de arte, Peggy Guggenheim; a irreverente musa de Warhol, Edie Sedgwick; a intemporal Lolita versus femme fatale, Brigitte Bardot; a naturalidade da senhora Gainsbourg, Jane Birkin; entre outras mulheres únicas na sua presença, talento e carisma como Nina Simone; Maria Callas; Catherine Deneuve. Mulheres de um tempo em que o estilo era sinónimo ou extensão de uma personalidade para além da sua aparência, e que era consequência de um talento ou carisma que precedia o ícone. Um pouco diferente do fenómeno das ‘it girl’ da atualidade, em que ter estilo é per si suficiente enquanto atributo único, legitimador de  protagonismo ou da atribuição de estatuto de figura pública. Talvez por isso não tenha em mente nenhuma referência de estilo mais contemporânea!



TCUP- Existe uma necessidade artística em tudo o que fazes e crias na e para a tua vida?
NC- A minha relação com a arte, bem como a necessidade de a incluir no que crio e faço, advém espontaneamente da minha relação com a vida, com as pessoas, o que absorvo e o que me inspira. Mas sempre através de um elemento exterior a mim uma vez que, sem falsas modéstias, não tenho nenhum dom artístico. Quando canto, os meus filhos trocam olhares desesperados como quem suplica silêncio! Quando desenho um macaco, a minha filha pergunta se é um elefante! Estudei música, e ainda me iniciei no piano, mas um dia fechei a tampa do piano em cima das mãos da professora... o meu lado ‘enfant terrible’... e fui expulsa. No que toca a dança, andei no ballet, mas cedo percebi que o meu ritmo era mais free style! Sou muito instintiva a dançar, mas convenhamos que não há aqui nenhum dom... basta tentar reproduzir apenas um dos movimentos da ‘Blaya’ dos Buraka Som sistema para perceber os meus limites na matéria! Como tal, a minha (única) arte é absorver, inspirar-me e apreciar a arte de quem tem esse dom. Pelo que sim, através dos outros e do que está ao meu alcance, faço por ter a arte como parte integrante de tudo o que faço e crio, na e para a minha vida. Viver com a consciência de que sou muito feliz, e senti-lo sendo fiel ao que acredito e praticando os valores que apregoo, talvez seja uma arte minha.



TCUP- O que mais ensinas aos teus filhos?
NC- Valores simples mas basilares, como o sentido de Lealdade, Integridade, Dignidade, Disponibilidade, Partilha e Entrega. Acima de tudo, quero que sejam fieis ao que os move, sejam pessoas, causas, pequenas ou grandes ações. Tento passar o respeito pela diferença, porque ela é positiva e essencial, e que estejam à altura das consequências dos seus atos. Que lutem pelo que acreditam e pela felicidade, sem receio das decisões a tomar. Sobretudo, que sejam eles mesmos e que me ensinem também, porque eu não sei tudo também aprendo com eles. Muito!

TCUP- És uma mulher viajada, que se conhece, que está atenta às tendências, que investe naquilo que a apaixona. O que te dá prazer e move na vida?
NC- Sou naturalmente curiosa, atenta, observadora e crítica, e isso faz com que a minha relação com o mundo nunca seja passiva nem apenas contemplativa. Adoro viajar, descobrir e ser confrontada com novas perspetivas, paisagens, realidades, mentalidades, culturas... Toda essa dimensão que nos é completamente alheia me fascina! Mas em qualquer lugar, o que realmente me move, são as pessoas, o desafio de me relacionar na semelhança e na diferença e a forma como me tocam. Mas em geral, tudo o que instintivamente me toca, inspira ou questiona, é o que me move. Falo de pessoas, emoções, sabores, lugares, momentos, detalhes, memórias, causas, projetos!

(Fotografia | José Cabral)

TCUP- És muito abordada pela forma como te vestes. Como te defines nesse sentido?
NC- Visto o que sou e sou o que visto. Acredito que forma como me apresento não é mais do que uma extensão, exteriorização de uma identidade própria. Uma síntese do que me caracteriza, manifestada através de uma estética, atitude e linguagem próprias, que refletem todo um conjunto de influências e de referencias que fui tendo ao longo da vida.
Quanto ao ser abordada pela forma como me visto… É verdade, mas talvez porque tenho um estilo que por vezes é arrojado, mas que para mim é natural e instintivo e espontâneo, porque sempre me vesti assim, e porque sempre assumi a minha diferença,  começando pelo meu nome, pela minha história pessoal, e tudo isto, consequentemente, acaba por se refletir no meu estilo.


TCUP- Imagino-te conversadora. Gostas de histórias? Ouvir ou contar?
NC- Gosto muito de contar, mas gosto ainda mais de viajar no que me contam.

TCUP- Se te perguntassem "Como é a tua vida, Namalimba?", o que responderias?
NC- Tenho uma muito vida feliz, verdadeira e merecida. Não a trocaria por qualquer outra realidade nem por qualquer sonho.



Sempre me disseram que viver é fácil, saber viver é que é mais difícil.
No fundo, basta ser real, aceitar aquilo que somos, ter uma certa ousadia, encontrar beleza nas pequenas coisas, nunca perder aquela dose de infantilidade e amar loucamente...
Será?


Aprendi tanto com a Namalimba! 
E não fica por aqui...


“Style is knowing who you are, what you want to say, and not giving a damn”
 Orson Welles

Fiquem atentos ao Close Up!

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