Após a história... o perfil com... Namalimba!

Namalimba Coelho, Assessora de Imprensa do Museu Berardo, Mulher Inspiradora e Mãe de dois!
Depois da partilha de uma história de vida única chega a segunda parte da entrevista a Namalimba, carinhosamente apelidada pelos amigos como Nama. Decidi traçar um perfil, explorar mais os seus gostos, as suas inspirações, a arte de uma forma mais personificada e não tão lata.
Enviei perguntas muito curtas, esperando receber respostas igualmente curtas. Mas a Namalimba é uma surpresa e escreve exactamente da mesma forma como vive, intensamente! Partilha momentos, conta histórias, faz crescer no nosso imaginário uma realidade que é sua. Não podia deixar de partilhar estas suas palavras, não podia "cortar" um discurso tão bonito nem "escolher" partes de uma vida tão interessante.
A Namalimba abriu-me as portas das suas memórias e da sua vida e eu absorvi cada detalhe...




Um filme?
Três!
‘África Minha", por todo o ritual que recordo da minha primeira ida ao cinema, acabada de chegar de Luanda... naquele dia tudo era uma descoberta para mim... caminhar livremente a pé pela rua de mão dada com a minha mãe, absorver cada detalhe de toda uma nova vivência de espaço, de paisagem, de liberdade, de tempo, de clima. O embalo da primeira viagem de metro rumo a uma sala de cinema! Tudo me fascinava! A imponência do edifício e daquela entrada do São Jorge, a majestosa sala principal, a imensidão do ecrã, o ritual da busca pelo lugar marcado! O bloco publicitário antes do filme começar até ao momento em que se apagaram as luzes, o volume do som aumentava, as pessoas acomodavam-se na cadeira e o silêncio que se seguia... e então surge a primeira imagem da ‘minha’ África. 
Foi uma primeira experiência de muitas sensações e marcou-me muito.
O mítico ‘Le Mépris’. Representa a minha derradeira rendição ao mestre Godard e ao cinema francês. Toda a envolvência dos diálogos, cenários, fotografia, a esplendorosa Bardot, Vila Malaparte, Capri. A par da monumental composição instrumental de Georges ‘Delerue’ a enfatizar ainda mais a intensidade do drama e da erosão daquele casal na sua relação de amor-desprezo. São tantos os momentos de culto!
E "Shinning"! Toda aquela enigmática e meticulosa “mise en scène” ao estilo Kubrick transporta-nos para um inebriante e magnético espetáculo de terror visual e psicológico! E a música e o próprio trailer são viciantes!
(Sei ainda de adora o "Fabuloso Destino de Amélie Poulain" por tudo o que representou na altura em que viveu em Paris!)


Um sonho?
O mais inspirador é o facto de nem sabermos ao certo definir ou concretizar o que nos faz sonhar. Tento viver deixando que o sonho devore a minha vida através de graduais concretizações, para que a vida não devore o meu sonho. Mas não penso muito no que sonho porque sou muito feliz com a minha realidade. E mais do que a medição ou concretização do sonho, valorizo a magia de todo o processo para alcançá-lo... Aspirar, imaginar, procurar, planear, querer, tentar... Tudo isto é o mais inspirador. Todos aspiramos concretizar conceitos, como a felicidade e a realização, e esses são os sonhos eternamente sonhados. E depois temos os sonhos da vida real... os que estão ao nosso alcance.. um dia… Sonho ter lições de piano numa capela que existe na Lapa com uma professora Bósnia chamada Vera.. Sonho ter um piano de cauda branco... Sonho voltar a ter uma chimpanzé como a que tinha em Luanda chamada Maguila.. Sonho dar a volta ao mundo com os meus filhos... Sonho conhecer alguém da tribo do Huambo que deu origem ao meu nome, a lenda da princesa e da tartaruga.


Uma viagem?
Duas..
Uma no tempo… Recuar até 1889 para embarcar na mítica rota do Expresso do Oriente no tempo que ligava Paris a Constantinopla e cruzar-me com algum assíduo ilustre passageiro da altura... Mata Hari seria a ilustre “desconhecida” que elegia para companheira ao longo das então 75 horas de viagem!
E a outra... viajar até à aldeia da Namalimba no Uganda.

Um objecto de culto?
São vários! Os meus diários; bilhetes que reportam a momentos; cartas e postais; caixas de música; canetas de tinta permanente; jóias antigas; relógios de bolso; mas principalmente fotografias e objetos antigos. Sou uma colecionadora de memórias e fascina-me a história e a carga emocional que os acompanha.

Um artista?
Há obras incríveis que se destacam no contexto do percurso do artista, não sendo isso sinónimo de que tenha essa artista como referência, mas a ter que nomear alguns, vou cingir-me à arte moderna e contemporânea… Man Ray, Cocteau, Fernand Léger, Malick Sidibé, Jean-Michel Basquiat, Sophie Calle, James Turell, Daniel Buren, Annish Kapoor, Nan Goldin, Nástio Mosquito, Yonamine, Binelde Hyrcan, Edson Chagas, Kiluanje Kia Henda, Mauro Pinto, Noé Sendas, Vhils.

Um Museu?
Centro Georges Pompidou. Pela Instituição em si, claro, mas principalmente pela intensidade de momentos que recordo lá ter vivenciado quando estudava em Paris. Nas exposições, no cinema, na cafetaria, mas principalmente na biblioteca de “Beaubourg” que era onde estudava. As exposições eram o meu refúgio nos intervalos de estudo, sem nunca imaginar que a “menina jurista” um dia seguiria o desígnio de trabalhar com arte contemporânea… e o cinema! Muitas matinés de domingo lá passei, rendida às sessões contínuas de filmes de culto a preços de estudante! E sem esquecer o marco que representa a arquitetura do Pompidou na paisagem urbana de Paris, com aquela magnética vista panorâmica que temos sob a cidade a partir das escadas rolantes exteriores e das icónicas tubulações transparentes que caracterizam o edifício!
Mas claro que outros são uma referência para mim, Musée D’Orsay, Louvre e Rodin, em Paris. Em NY o Moma, PS1 Moma e Guggenheim. Mas cada destino tem museus únicos e incontornáveis, tento sempre visitar os de arte antiga, contemporânea e de artistas locais, mas também Fundações e Galerias pois são complementares para uma perspetiva abrangente do panorama da arte, pelo que não me atrevo a eleger nenhum em particular, respeitando a singularidade de cada um, à exceção do Pompidou pela ligação emocional.
E o "meu" museu, claro.. o Museu Coleção Berardo, onde me orgulho de trabalhar desde a sua abertura, em Junho de 2007.


Uma inspiração?
Uma inspiração... A vida real, as pessoas e os heróis desconhecidos que nela habitam e que fazem parte do nosso quotidiano, porque são as que me podem tocar e inspirar diretamente, mas acho que cada detalhe pode ser uma inspiração, tudo depende do nosso olhar atento ao que nos rodeia, desde momentos, imagens, conversas, encontros, emoções... Tudo pode ser fonte de inspiração, o importante é haver entrega e estarmos atentos aos detalhes da vida para sentirmos esse retorno como uma inspiração!


Obrigada, Namalimba!

 O Close Up no Facebook, aqui!  

No comments:

Post a Comment