Saídos da Concha

A Constança entra nas minhas memórias de criança. Estudámos juntas desde pequenas. 
Recordo-me da menina aplicada, boa aluna. Sempre pensei que a vida levasse a Constança para outros caminhos. Foi uma surpresa tropeçar no blogue Saídos da Conha, percorrer as várias páginas já escritas e perceber o quão diferente é a vida da Constança.
É uma costureira de mão cheia, uma excelente fotógrafa, com um sentido estético imenso e uma abordagem perante a vida cheia de cor. Penso que é impossível ficar indiferente aos relatos diários da Constança e da sua vida no campo, em Inglaterra, às cores que enchem a sua casa, às flores que planta, ao pão que coze diariamente (ou quase!) e ao que costura!




TCU- Como nasce a paixão pela costura?
Constança Cabral- Sempre vi a minha mãe fazer cortinados e colchas lá para casa, por isso a máquina de costura não era um bicho estranho para mim. Em 2006 fui com a minha mãe a Londres e um dia, numa livraria, dei de caras com o livro “Home-Made Vintage” da Christina Strutt. Mal chegámos a Lisboa, pedi à minha mãe que me ensinasse a usar a máquina e nunca mais parei!

TCU- Porquê o nome Saídos da Concha?
Concha- Quando comecei a coser apercebi-me de que havia blogs dedicados ao género de costura a que eu achava graça. Nessa altura quis criar um blog meu, para ir documentando as coisas que fazia e para me auto-motivar a fazer mais e melhor — mas precisava de um nome! Quem inventou a expressão “Saídos da Concha” foi o Tiago (o meu namorado nessa altura, agora marido): Concha é o meu diminutivo e Saídos da Concha são os frutos da minha criatividade.

TCUComo se estende ao blogue?
Concha- O blog é um relato quase diário do melhor dos meus dias. A temática começou por ser a costura mas foi evoluindo a ponto de, hoje em dia, englobar todos os aspectos da vida doméstica que me interessam: decoração, jardinagem, arranjos de flores, bolos, livros...


TCU- Como surge a mudança de país e de que forma isso afecta a tua arte?
Concha- O Tiago e eu queríamos ter uma experiência internacional e, a certa altura, surgiu-lhe uma proposta de trabalho em Inglaterra. Nem pensámos duas vezes! Decidimos logo que iríamos procurar uma casa no meio do nada e tirar o maior partido disso. Para mim tem sido excelente: o facto de viver no meio da natureza tem-me permitido explorar novos campos criativos: o meu gosto por árvores e flores explodiu, o meu amor pelas estações do ano desabrochou, conheci novos frutos (com os quais tenho feito doces e licores), enfim... tenho estado exposta a muita coisa nova!



TCU- Campo ou cidade?
Concha- Campo, respondo sem hesitar. Tem graça porque, até virmos para Inglaterra, sempre me considerei uma urbana... sempre vivi em Lisboa e adorava aquilo de poder ir a pé para todo o lado. Mas agora que conheço a tranquilidade do campo e que tenho a sorte de viver numa casa grande com jardim, ser-me-ia muito difícil voltar a morar num pequeno apartamento no centro de uma cidade.


TCU- No blog,dás a conhecer um estilo de vida diferente do habitual, é fácil quebrar rotinas e mudar de vida?
Concha- Não é fácil mas também não é difícil! Acho que a partir do momento em que escolhemos uma coisa, temos de andar para a frente, sempre tentando tirar o maior partido possível das consequências que essa escolha teve. Não posso cair na tentação de pensar “ah, se eu fosse advogada como os meus amigos, teria neste momento um óptimo ordenado” ou “ah, se eu ainda vivesse em Lisboa, amanhã iria à praia”. Isso não é vida!







TCU- Tens algum objectivo com o Saídos da Concha?
Concha- Gosto muito desta oportunidade de partilhar com quem me lê aquilo que me entusiasma, assim como despertar as pessoas para as coisas boas de um estilo de vida um bocadinho menos ortodoxo. É tão recompensador receber e-mails a dizer que, graças ao meu blog, uma determinada pessoa resolveu dar uso à máquina de costura da avó, ou que outra pessoa fez a minha receita de queques e os filhos adoraram.

TCU- Quem são os principais clientes e o que vendes mais?
Concha- Já vendi para todo o mundo, desde a Malásia, passando pelos EUA, até à Austrália. Mas a maioria das minhas clientes é portuguesa, sendo que nem todas as portuguesas que me compram coisas vivam em Portugal. O que se esgota sempre em algumas horas são os “quilt kits”: kits para fazer mantas de retalhos, que incluem os tecidos pré-lavados e já cortados, o enchimento, as agulhas e 16 páginas de instruções ilustradas.

TCU- Como é o dia-a-dia de uma blogger que costura e vive fora do seu pais?
Concha- É desorganizado, sobretudo agora que tenho um bebé! Entre manter uma casa minimamente decente, preparar posts, gerir as actualizações da loja, planear projectos futuros, dar atenção ao Rodrigo e falar com os meus pais no Skype, sobra pouco tempo para outras coisas.



TCU- É um trabalho a tempo inteiro? Juntas ainda a vertente da fotografia. É outra paixão?
Concha- Sim, é um trabalho absolutamente a tempo inteiro! Em relação às fotografias do blog, metade é tirada por mim e a outra metade pelo Tiago. Ele, sim, é verdadeiramente apaixonado por fotografia! Podem ver algumas das imagens dele aqui (http://flickr.com/photos/tiagocabral).

TCU- Tudo isto passa por uma filosofia de vida ou uma casualidade que se tornou numa forma de viver e de estar?
Concha- Uhm... boa pergunta. Ambas as situações, diria. Quando comecei a coser não pensei que iria largar o mestrado para me dedicar exclusivamente a isso. Por outro lado, o blog é um reflexo bastante autêntico da minha maneira de estar na vida. A verdade é que este é um projecto conjunto, meu e do Tiago, e que sem o constante apoio dele nada disto existiria.


Acho que esta história é um bom exemplo de vida. 
Certamente que a Constança com 20 anos imaginaria tudo de uma forma diferente.
Aqui está a prova que cada um é para o que nasce, mesmo que seja o oposto, paralelo ou apenas uma linha sinuosa, daquilo que sonhámos um dia!


Obrigada, Constança!

(fotografias by Constança e Tiago Cabral)

7 comments:

  1. Adorei conhecer esta mulher de armas que teve a coragem de abraçar uma vida que não se coaduna em nada com aquilo que de certo se esperava dela. Nem de propósito ainda hoje falei deste aspecto no meu blog, que bela coincidencia vir aqui ler o relato de alguém que optou pelo que realmente a faz feliz!
    http://fashionfauxpas-mintjulep.blogspot.com

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  2. uau adorei! não conheço o blog, nem tão pouco a pessoa, mas adorei a história de como tudo pode mudar, e que as mudanças podem ser boas!
    uma grande inspiração sem duvida que a vou visitar =)
    beijinhos*

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  3. Olá! Eu já sigo o blog desde 2007 e são raros os dias em que não vou lá espreitar para ver se já há alguma novidade da Concha. Ela tem-me inspirado em muita coisa. Adoro pessoas como ela. Bjinhos

    http://skinnygirlintights.blogspot.pt/

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  4. Sigo a Concha desde 2009, e tenho clutches e écharpes feitas por ela. Sou apaixonada por tudo o que ela faz, e admiro a escolha que ela fez. Adorei conhecê-la mais um pouco... ótima entrevista!
    Beijos
    Helena

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  5. Moro no Brasil e sico a Concha, e amo tudo que ela faz, embora seja mais velha que ela, eu me espelho nela... tenho dois filhos um de 8 e outro de 4 anos... e imagino que se eu tivesse oportunidade, tbém viveria no campo e viveria como ela vive hoje, tão somente para o filho, marido, lar e as costuras.

    Otima entrevista.

    beijos

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  6. Também moro no Brasil, sou admiradora e assídua do "Saídos da Concha" há anos. Amo o jeito da Constança expor suas coisas e tenho aprendido muito com ela. Fico muito feliz com seu sucesso, pelo lugar onde ela tem oportunidade de viver(eu viveria super bem ali) e o filho é um fofo, e sortudo! hehe. Não me canso de indicar o blog às amigas. Parabéns!
    Muito boa a matéria.

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  7. Contança é uma mulher sensacional,sou uma fã incondicional. Sigo o seu blog a algum tempo e é uma inspiração a cada postagem.
    Parabéns Tatiana pela linda matéria, Contança é realmente um motivo de orgulho para todas as mulheres do mundo. Um exemplo de vida.

    Beijos

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